CARTOLA, A SENSIBILIDADE E O OLHAR DE POETA

As rosas não falam – Alexandre Pires – DNA Musical

QUEM FOI CARTOLA

Cartola, a sensibilidade e o olhar de poeta

Angenor de Oliveira (*), conhecido como Cartola, nasceu no Catete, no Rio de Janeiro, no dia 11/10/1908. Era filho de Sebastião Joaquim Oliveira e Ada Gomes. Ainda criança, foi viver em Laranjeiras. Tocava já nesta época, cavaquinho, instrumento que ganhou do pai aos 8 anos. Cartola teve contato com todas as festividades populares do Rio de Janeiro; seus familiares iam desfilar no Dia dos Reis, todos fantasiados e acompanhados por cavaquinho e violão. Ele era muito inteligente mas foi expulso de várias escolas por mau comportamento. Dessa forma, só concluiu o curso primário. Quando tinha onze anos, seus pais se mudaram para o Morro da Mangueira. Cartola começou a frequentar a vida boêmia e as rodas de samba. Tocava violão e cavaquinho. Com quinze anos, perdeu  sua mãe. Seu Sebastião mandou Cartola tratar da vida. Sem ter onde dormir, ele ficava pelas madrugadas na boêmia e malandragem.

PRIMEIROS TRABALHOS

Para se sustentar, Cartola empregou-se em uma tipografia; contudo, não ficou muito tempo, pois não se adaptou ao serviço; ele gostava de assobiar e cantar e lá não podia. Começou então um trabalho na construção civil e acabou aprendendo a profissão de pedreiro. Nessa época, usava um chapéu-coco para proteger a cabeça; nasceu assim o apelido de ‘Cartola’Criou lindas composições, algumas de improviso, outras em parceria com sambistas da época. Entre seus sucessos inesquecíveis estão: As Rosas não Falam, O Mundo É um Moinho e O Sol Nascerá.

PRIMEIRO RELACIONAMENTO CONJUGAL

Sua vizinha de barraco, chamada Deolinda da Conceição, era casada e já tinha uma filha. Era sete anos mais velha que ele, porém se preocupava e comcçou a cuidar de Cartola, que tinha 18 anos. Deolinda já era casada mas acabou abandonando o casamento para viver com Cartola; ele acolheu a filha de Deolinda, Creuza e a criou como se fosse sua filha; é através da relação entre os dois que surgiu um dos maiores sucessos de Cartola, a música ‘O Mundo é um Moínho‘.

CARTOLA E O INÍCIO DE SUA TRAJETÓRIA MUSICAL

O olhar sensível de Cartola sobre a vida

A vida boêmia ganhou força quando Cartola conheceu Carlos Cachaça que, com seis anos a mais, apresentou a Cartola um pouco da malandragem, da bebida e do samba. Ao lado de outros amigos do morro, o sambista criou então o Bloco dos Arengueiros, que foi o primeiro passo para o que mais tarde se tornaria a Estação Primeira de Mangueira, fundada em 1928. Na ocasião, Cartola ficou com o cargo de primeiro Diretor de Harmonia da Escola e as cores e o emblema da Mangueira foram escolhidos e criados por ele.

CARTOLA E A ESTAÇÃO PRIMEIRA DE MANGUEIRA

Cartola e sua perspectiva poética do mundo

Como Cartola era um dos fundadores da Estação Primeira de Mangueira; acabou escrevendo o primeiro samba para a Mangueira, Chega de Demanda. A escola ganhava notoriedade, o nome de Cartola consequentemente também crescia; ele era apontado como um dos principais compositores da Mangueira. Nascia ali então o sambista! Na década de 30, o cantor começou a ficar conhecido fora do ambiente da escola de samba e algumas parcerias surgiram. Da parceria com Carlos Cachaça, provando que a amizade ia além da troca de copos, surgiu o samba ‘Pudesse Meu Ideal‘, levando dessa forma, a Mangueira ao pódio em 1932. Fez também uma parceria com Noel Rosa e juntos compuseram algumas canções sendo uma delas Tenho um Novo Amor, música gravada por Carmen Miranda.

PARCERIAS IMPORTANTES

Cartola: o poeta do samba

No ano seguinte, 1933, o samba Divina Dama foi o primeiro a se tornar um grande sucesso, interpretado por Francisco Alves. As parcerias de Cartola não pararam por aí e nos anos 40, grandes nomes da música brasileira, como Pixinguinha, Zé da Zilda, João da Baiana e Donga, se juntaram a Cartola para formar grupos de sambistas, tudo incentivado por Heitor Villa-Lobos. (Leia post sobre Villa Lobos neste Blog: https://conclavedesol.mastermusica.com.br/villa-lobos-brasilidade-em-acordes/) O objetivo dele era que os sambistas fizessem gravações para que o maestro americano Leopold Stokowsk gravasse em um navio ancorado no píer da Praça Mauá, no Rio de Janeiro. A bordo do navio, Cartola chegou assim a gravar Quem Me Vê Sorrindo. Consequentemente desta iniciativa, surgiu o álbum Native Brazilian Music, lançado em 1946. 

PERÍODO DE DIFICULDADES

A Mangueira teve a sua direção trocada e os novos integrantes não viram no compositor o seu verdadeiro valor. Sua música que representaria a Mangueira no carnaval de 1947 foi desqualificada pelos jurados.Chegou a brigar com os novos integrantes da escola e acabou saindo do morro, ficando desaparecido por uns sete anos. O cantor ainda ficou doente de meningite, entrou em coma por três dias e precisou usar muletas por um ano. Infelizmente, depois de se recuperar da meningite, Cartola teve que lidar com a morte de Deolinda, que faleceu por conta de um ataque cardíaco. Afastado do mercado e da cena musical, chegou a morar na favela no bairro do Caju com outra mulher, Donária. Para se manter, se virava como lavador de carros e vigia de edifícios. Por conta do sumiço, muitos chegaram a cogitar que Cartola havia morrido. 

SEGUNDO RELACIONAMENTO

Cartola vivia uma de suas piores fases da vida. Totalmente entregue à bebida, magro, sem dentes e enfrentando muitas dificuldades. Até que uma antiga admiradora do cantor, Eusébia Silva do Nascimento, ficou sabendo que ele estava vivendo na favela da Manilha e decidiu procurá-lo. Eusébia era conhecida como Dona Zica e era cunhada do amigo Carlos Cachaça. Provavelmente a paixão pelo músico surgiu naquele período de parceria entre os dois. Dona Zica deu força à Cartola e juntos voltaram para o Morro da Mangueira e criaram o bar Zicartola, no início dos anos 60. O local se tornou um ponto de encontro de sambistas, músicos e compositores. Zica e Cartola decidiram oficializar a relação em 1964 e ele compôs para ela o samba Nós Dois.

SERGIO PORTO ENCONTRA CARTOLA

A poesia em música

O jornalista Sérgio Porto, também conhecido como Stanislaw Ponte Preta trabalhava como jornalista escrevendo crônicas satíricas e críticas; em 1959 entrou num botequim de Ipanema e se deparou com um negro, magro, desdentado e aparência pouco saudável e reconheceu nele o ‘Divino’ Cartola como o chamavam. Abraçou-o comovido. Cartola tinha um emprego noturno de lavador e guardador de carros numa garagem.
Leia mais: https://comsambadapraca.webnode.com.br/products/cartola-e-sua-historia. Ele então abriu espaço para o cantor voltar às rádios, retornando assim ao cenário artístico. Foi a partir deste período que o músico foi reconhecido e passou a viver como merecia. Participou do filme Ganga Zumba, de Carlos Diegues, e finalmente lançou seu primeiro disco em 1974, considerado um dos melhores do ano. Após 27 anos afastado, voltou enfim a desfilar pela Mangueira. Tardiamente Cartola, lançou o seu primeiro LP quando passava dos 60 anos. 

O LEGADO DURADOURO DE CARTOLA

A alma de poeta: Cartola

 Cartola tinha alma de poeta e em cada momento da vida encontrava inspiração para suas composições.  O acervo deixado por Cartola é perto de 150 canções. Cada música tem uma história: 

As rosas não falam

A letra e música são de sua autoria. Dona Zica, sua esposa, certa vez ganhou algumas mudas de roseira, plantou em seu quintal. Logo encontrou o jardim repleto de rosas e, extasiada, perguntou ao Cartola como podia ter florescido tantas flores. Ele, então, disse a frase: “_Não sei, Zica. As rosas não falam.” A frase ficou remoendo na cabeça do sambista por dias. Algum tempo depois, acabou compondo essa joia musical. Além disso, aproveitou para homenagear o seu amor, Dona Zica.

O Mundo É Um Moinho

Ele escreveu essa música ‘O Mundo é um Moínho para a sua filha adotiva. Dedicou a Creuza Francisca dos Santos, como um alerta à jovem sobre todas as ilusões da vida. Afinal era como se Cartola estivesse dando conselhos a ela; ele escreveu lindos versos para tentar fazer com que a garota escolhesse outros rumos em sua vida.

Preciso Me Encontrar

Uma das melhores músicas do Cartola como cantor. ‘Preciso Me Encontrar’ foi escrita pelo sambista e Antônio Candeia Filho. A letra dessa música apresenta um personagem ao ouvinte, que está em busca de viver a vida e afinal aproveitar todo o contato que tiver com a natureza, sendo um andarilho em busca do conhecimento.

O Sol Nascerá

 ‘O Sol Nascerá‘ foi o resultado de uma aposta. Cartola e Elton Medeiros escreveram a canção em questão de minutos;  após terem sido desafiados por seu amigo Renato Agostini. Logo depois, de improviso, estava criada uma linda música com mensagens de otimismo.

Corra e Olhe o Céu

Corra e Olhe o Céu’ foi uma música escrita por Cartola e Dalmo Castello; traz um personagem que está à espera de sua linda companheira, cheio de saudade de sua amada. A mensagem é: mesmo que nós estejamos tristes, é necessário deixar as pessoas que amamos serem livres, para que voltem se quiserem. A mensagem é poética e essa música foi incluída no álbum póstumo lançado em 1982.

Amor Proibido

Na música ‘Amor Proibido’, o sambista fala sobre a sensação de desilusão de ter amado alguém que não lhe deu o devido valor. Ele se envolveu certa feita, com a mulher de uma amigo, consequentemente a música sugere um amor impossível.

Alvorada

A música ‘Alvorada’ é também uma das melhores músicas do Cartola, tendo uma introdução bem característica do samba; a letra é alegre e ressalta as belezas do morro. Ela foi escrita, como resultado, da parceria de Cartola, Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho.

Tive Sim

Tive Sim‘ é sobre o sentimento de ciúmes, que todos sentem, porém não gostam de assumir. Sua mulher tinha ciúmes do relacionamento anterior que Cartola tivera. E Cartola  compôs “Tive Sim”. A letra é como uma explicação à sua companheira sobre um amor que o sambista teve antes dela.

Sala de Recepção

Apesar de retratar o carnaval, que possui espírito de festa, a Portela puniu o amigo de Cartola, o Paulo da Portela. A Portela proibiu que Paulo desfilasse pela Portela pelo fato dele ter participado do desfile da Mangueira junto com seus amigos. Cartola esteve ao lado do seu amigo; não só o levou para morar por um período na Mangueira, como também escreveu o samba ‘Sala de Recepção’, que foi inspirado nesse acontecimento.

O OLHAR DE POETA E A PARTIDA

O que seria do nosso bom e velho samba sem a figura de Cartola! Angenor de Oliveira, nascido no Rio de Janeiro em 1908 foi um dos maiores compositores e sambistas do país. Ficou junto de Dona Zica até falecer, em 30 de novembro de 1980. Infelizmente, por conta de um câncer, aos 72 anos de idade. Fez muito pela música e pelo samba, consequentemente, como uma reparação histórica, muitas homenagens surgiram após a morte de Cartola; finalmente o seu legado passou a ser reconhecido. Como muitos gênios, porém, infelizmente o reconhecimento chegou tarde. Por outro lado, a vida foi muito dura para com ele. Entretanto mesmo com a vida sendo dura em muitos momentos, ele não deixou morrer a sua sensibilidade e seu olhar de poeta.

Reencontro emocionado de Cartola com seu pai após 40 anos sem se falar… Cartola atende então ao pedido do seu velho… e que pedido!!!

NOTA: (*)Angenor de Oliveira é o nome  correto de Cartola. Parece estranho, quando o correto poderia ser Agenor mas fizemos peqsuisa e apesar de em diversos sites estar nomeado como Agenor outras pesquisas confirmaram ser correto mesmo Angenor.

Cartola e seu Pai – O Mundo é um Moínho

Fonte:

Não percam a próxima postagem Sílvio Caldas!

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