CHIQUINHA GONZAGA: A PRIMEIRA MAESTRINA BRASILEIRA

QUEM FOI CHIQUINHA GONZAGA

Francisca Edwiges Neves Gonzaga – CHIQUINHA GONZAGA, a primeira maestrina brasileira, nasceu da união deJosé Basileu Neves Gonzaga com a alforriada Rosa, filha de escrava. Asssim, seu pai fez questão de dar à sua filha uma esmerada educação. A menina cresceu e se educou então, num período de grandes transformações na vida da cidade. Além de escrever, ler e fazer cálculos, estudar o catecismo e outras prendas femininas, a jovem sinhazinha aprendeu a tocar piano.  Teve uma esmerada educação; educou-se para ser uma dama.

CHIQUINHA E SEU PRECOCE CASAMENTO

Seu pai lhe deu um excelente casamento; escolheu para ela um empresário Jacinto Pereira do Amaral. Chiquinha tinha dezesseis anos quando casou, mas amava o seu piano e então já casada se dedicava ao que mais gostava: tocar piano; seu marido não gostava de música. Encarava o piano como seu rival. Chiquinha, determinada, não estava disposta a desistir da música e nem do piano. Dessa forma, então se rebelou. Estava muito infeliz com aquele casamento. Conheceu o engenheiro João Batista de Carvalho e se apaixonou por ele; afinal, resolveu abandonar o marido e passou a viver com o homem por quem se apaixonara.

A AÇÃO JUDICIAL

A Lei do divórcio no Brasil é de 1977 (Lei 6.515 – 26/12/1977). Estamos falando de fatos que ocorreram em 1870. Mais de um século atrás – 107 anos antes da Lei do divórcio ser instituída no Brasil. Mas o marido recorreu aos Tribunais Eclesiáticos e moveu uma ação judicial alegando abandono do lar e adultério; Chiquinha foi julgada por esses fatos e a sentença foi o divórcio perpétuo. Mas naquela época não era permitido novo casamento.

O ESCÂNDALO

Chiquinha Gonzaga, 16 anos. (Fonte: Edinha Diniz)

Podemos imaginar então como esse escândalo repercutiu na cidade do Rio de Janeiro. Além da desilusão Chiquinha foi incompreendida pela família, proibida de procurá-los e declarada morta por eles; ficou sozinha e sofreu condenações da sociedade…mas mesmo com todos esses contratempos precisava a qualquer custo sobreviver. Concluindo, ela decidiu sobreviver do que ela mais sabia fazer: tocar piano. Podia compor, tocar nos salões de baile, podia dar aulas, tocar nas casas que vendiam instrumentos musicais. Tarefas nada fáceis para aquela época. As mulheres por exemplo, só tocavam dentro de suas casas. A profissionalização de uma mulher musicista então, era impensável para a sociedade; e ela sofreu novas e duras críticas; em conclusão, sua reputação ficava cada vez mais abalada. Viveu momentos muito difíceis.

Seus grandes desafios

Chiquinha enfrentou todos esses desafios. Ela tinha talento, determinação e coragem. Qualidades afinal, não faltavam a ela. A música nacional naquela época não era considerada arte. Por outro lado os burgueses apreciavam composições europeias e torciam o nariz para qualquer expressão cultural que expressasse alguma brasilidade. Mas ela decidiu superar esses problemas. Se preparou e começou a desenvolver várias atividades: ministrava aulas em casas particulares, passou a integrar o conjunto do flautista Antonio Joaquim Callado (clique aqui: (https://conclavedesol.mastermusica.com.br/antonio-callado-e-o-pai-do-choro), começou a escrever partituras para o teatro musicado, musicou dezenas de peças nos mais variados gêneros. Resolveu aperfeiçoar a sua técnica e teve aulas com o pianista português Artur Napoleão; enfim, aprendeu regência com o maestro Leopoldo Miguez um dos fundadores do Conservatório do Rio de Janeiro.

SUA ESTREIA COMO COMPOSITORA

Chiquinha Gonzaga, a primeira maestrina brasileira

Compôs músicas para a opereta Forrobodó. A música que tanto sucesso faz até hoje LUA BRANCA ela escreveu para esta peça. Foi apresentada no Teatro São José em junho de 1912, como modinha das personagens Sá Zeferina e Escandanhas. Chiquinha regeu esta apresentação no Teatro Príncipe Imperial. Não havia em português uma palavra para denominar sua ação. A imprensa dessa forma, a tratou pela primeira vez com o termo Maestrina. Ela musicou operetas, comédias, burletas, revistas cômicas, revistas do ano, dramas, zarzuelas, óperas cômicas, peças fantásticas, mágicas, dramas líricos e peças de costumes. Seu acervo possui mais de 300 músicas. Mais tarde regeu no Teatro São Pedro de Alcântara um concerto de violões. O violão que era estigmatizado na época foi elevado à categoria de erudito.

SUA MILITÂNCIA POLÍTICA

Chiquinha Gonzaga, 29 anos. (Fonte: Edinha Diniz)

Participou das causas sociais da época. Denunciou o preconceito e o atraso social. Era abolicionista e começou a vender suas partituras de casa em casa. Naquele tempo a elite valorizava muito o piano e a maioria das casas tinha esse instrumento; ela vendeu partituras de suas obras para angariar dinheiro e com ele finalmente alforriou José Flauta um escravo músico.

Chiquinha Gonzaga, a primeira maestrina brasileira

Ô Abre Alas – primeira marchinha carnavalesca

Chiquinha Gonzaga no início do século XX criou a marchinha carnavalesca Ô abre Alas que até hoje é cantada nos carnavais. Consequentemente o carnaval jamais a esqueceu. Aos 52 anos de idade, já consagrada, Chiquinha conheceu aquele que se tornou seu fiel companheiro até o final da vida, o jovem português de 16 anos João Batista Fernandes Lage, mais tarde João Batista Gonzaga. Graças a ele temos acesso a sua obra; ele a preservou com toda dedicação.

SBAT – Sociedade Brasileira de Autores Teatrais

Chiquinha já fazia muito sucesso e e foi reconhecida afinal, em vida pela sociedade e pela crítica. Fundou a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (Sbat). Seu trabalho estava sendo muito explorado por todos os cantos do país e na Europa encontrou obras suas, sendo vendidas sem nenhum retorno para ela. Foi a primeira pessoa no país a pensar nos direitos autorais do compositor. Apesar de sofrer tantos preconceitos teve enfim, seu trabalho valorizado em vida pelo público e pela crítica.

Edinha Diniz, sua biógrafa disse

Chiquinha Gonzaga, a primeira maestrina brasileira

“Personalidade exuberante, ela foi dos compositores brasileiros a que trabalhou com maior intensidade a transição entre a música estrangeira e a nacional. Com isso, abriu o caminho e ajudou a definir os rumos da música propriamente brasileira, que se consolidaria nas primeiras décadas do século XX. Atravessou a velhice ao lado de Joãozinho, a quem a posteridade agradece a preservação do acervo da compositora. “

Regina Duarte interpretando Chiquinha Gonzaga regendo o Guarani na Minisérie

FONTE:

5 thoughts on “CHIQUINHA GONZAGA: A PRIMEIRA MAESTRINA BRASILEIRA

  1. Tornei-me fã de Chiquinha Gonzaga ao assistir sua minissérie. Era uma mulher fantástica de vanguarda, corajosa e engajada com as causas sociais. Admirável. Uma grande musicista que deixou uma obra extremamente valorosa para cultura de nosso país. Muito obrigada por compartilhar essa história linda e inspiradora.

        1. Lucy
          Sim, eu também. Uma mulher à frente do seu tempo enfrentou todos os preconceitos da sociedade carioca, naquela época. Mulher valente, que sabia decidir o que queria, que não teve medo de enfrentar e romper os paradígmas.
          Bjs
          Nilce

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